Sexta-feira, Março 11, 2005

ponto

cansei da minha escrita inútil
nunca pensei que fosse precisar
de poesia para dizer que sinto
não ter a deliciosa sua capacidade
de hipnotizar e botar em câncer-pessoa
coisa que palpita renitente em tum

mas nem pense que todo o processo
é irreversível sozinho em essência
moço vazio uma vez em todas as vezes
um dia homem aprende e deixa até
mesmo de procurar perfume da moça
em travesseiro cheio de lágrimas

Quinta-feira, Março 10, 2005

Sem título

Em palavra zumbi escrevi seu nome.
No papel ele se levantou, ficou a
me encarar e, de mãos em cintura,
exigiu respostas que não tomassem
mais do que as casuais cinco linhas.

Disse que não sou bom sintetizador,
que não consigo botar o que sinto
em ralas cinco linhas a se desfiar
pela folha pautada de azul e branco.

Notei depois de bom tempo passado
que entre os dentes seu nome ria.

Quarta-feira, Março 09, 2005

Cotidiano

De tudo, penso o mesmo.
Do monte, pego o creme.
Só mesmo o creme insosso
para fazer pensar homem
vazio, avoado e sem coração.
Façam as galinhas invísiveis
da cidade grande murmurar em
seu ouvido após outro suspiro!
Façam o chuveiro impotente
jorrar água em gelo por entre
as rídiculas pernas do homem corvo!
Façam ele morrer, e depois acordar.

Terça-feira, Março 08, 2005

Onipresente

Nem acho que você tenha
uma saia dessa cor azul.
Tampouco penso em parar!
Só ando esfumaçado pelo
contrafluxo tomado a olhar
para toda única moça de
saia bela azul rodopio.

Sábado, Março 05, 2005

Telefone

Acalme-se
só pre-
ciso que
você me
faça lem-
brar se
ainda que-
ro, se
ainda sou.

Terça-feira, Março 01, 2005

O sonho que inventei

Enquanto você fingia
que não me olhava,
Ramón chegou
e nos ofereceu mais café.
Sorri de calor.
O Sol grande-aspirina
nos mordendo
e o rapaz-mulherinha com
líquido fervendo
em duas minúsculas xícaras!
O que tínhamos para piorar?
Disse para ele que
trouxesse mais café:
um balde, se pudesse!
e com dois cubinhos
de Sol,
se não fosse incomodar muito a
pequena delicada concubina nordestina.

A João

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

Les mots

Descobri que gosto de sofrer por você.
Acho que foram fotografias que
achei em canto algum.
Quem sabe não passou de perfume que
senti em nunca lugar,
ou o beijo antecedido de sorriso que
dei em jamais boca.
Agora mesmo achei bom o sem-saber sofrer.

Satélite

Você sorriu enquanto me olhava naquele dia.
Depois, enquanto não se acostumava a mim,
tentou fazer com que eu desistisse da idéia
de ter você emoldurada em meus lençóis crus.
Lençóis que certo mais tarde absorveriam toda
a sua essência de menina-pele para me molestar
e não me deixar ao menos morrer em sono bonito.